sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Mensagens subliminares negativas são mais efetivas




As pessoas são capazes de perceber mensagens subliminares, particularmente se seu teor é negativo, diz um estudo britânico.
Em três experimentos realizados por pesquisadores da University College London, de Londres, participantes foram expostos, durante curtos períodos de tempo, a imagens que continham palavras neutras, negativas ou positivas.
As palavras apareciam de forma camuflada, ou seja, não eram facilmente identificáveis. Após observar as imagens, os voluntários tinham de classificá-las, dizendo se elas sugeriam alguma emoção ou não.
No final, os participantes foram capazes de categorizar corretamente 66% das palavras negativas subliminares em comparação com apenas 50% das positivas.

Flor, agonia, orelha
Os autores do estudo, publicado na revista científica Emotion, disseram que a habilidade de reagirmos a sinais sutis nos ajuda a evitar o perigo.

MENSAGEM SUBLIMINAR: BREVE HISTÓRICO


  • 1957: Especialista em pesquisas de mercado James Vicary disse que imagens subliminares projetadas em uma tela de cinema em New Jersey tinham feito com que o público comprasse mais comida e bebida

  • Vicary criou o termo ''propaganda subliminar''

  • Em 1958, Grã-Bretanha, Estados Unidos e Austrália proibiram a prática

  • 1962: James Vicary admitiu ter falsificado os resultados do seu estudo

  • 1974: Apesar da falta de evidências de que mensagens subliminares funcionem, a ONU declarou que seu uso é uma séria ameaça aos direitos humanos

  • 1985: Joe Stuessy disse ao senado americano que eram necessárias mais pesquisas sobre o uso de mensagens subliminares em música heavy metal

  • 1990: A banda Judas Priest foi levada para o tribunal pelos pais de meninos que se suicidaram após ouvir os discos da banda. O Judas Priest disse que se quisesse incluir mensagens subliminares em seus discos, elas seriam usadas para dizer às crianças que comprassem mais CDs


  • Nos experimentos, a cientista Nilli Lavie, da University College, mostrou aos 50 participantes uma série de palavras em uma tela de computador.
    Cada palavra aparecia na tela por apenas uma fração de segundo - tempo tão pequeno que não permitia que o participante conscientemente lesse a palavra.
    As palavras eram positivas (alegre, flor, paz), negativas (agonia, desespero, assassinato) ou neutras (caixa, orelha, chaleira).
    Após ver cada palavra, os participantes tinham de dizer se ela era neutra ou tinha impacto emocional (positivo ou negativo) e quão confiantes estavam em relação a sua escolha.
    Os pesquisadores verificaram que os participantes tendiam a responder mais precisamente após ser expostos a palavras negativas mesmo quando acreditavam que estavam apenas adivinhando suas respostas.
    Evolução
    "Nós demonstramos que as pessoas são capazes de perceber o valor emocional de mensagens subliminares e provamos conclusivamente que as pessoas são muito mais sensíveis a palavras negativas", disse Lavie.
    "Claramente, responder rapidamente a informações emocionais é vantajoso do ponto de vista evolutivo."
    "Não podemos esperar que o consciente entre em ação se vemos alguém correndo em nossa direção com uma faca ou se estamos dirigindo em meio à neblina e vemos um aviso de perigo."
    A pesquisadora disse que seu trabalho pode ter aplicações em campanhas de marketing: "Palavras negativas podem ter impacto mais rápido", disse.
    slogan "Mate a sua Velocidade", por exemplo, pode funcionar melhor do que "Diminua", ela sugere.
    Entretanto, o especialista em psicologia do marketing Paul Buckley, da Cardiff School of Management, no País de Gales, disse que não há evidências de que mensagens subliminares funcionam em situações reais do dia a dia.
    "Em termos práticos, este (experimento) não reflete necessariamente o que aconteceria na vida real".

    quinta-feira, 8 de outubro de 2009

    Tempo ruim em Titan





    Titan é a maior lua do nosso Sistema Solar. Não tivesse o “azar” de estar ligada à Saturno, certamente seria classificada como um planeta, quase do tamanho de Mercúrio. Além do tamanho de um planeta, Titan é a única lua do Sistema Solar que possui uma atmosfera espessa e densa como a da Terra.
    As semelhanças não param por aí: da mesma maneira que o tempo fecha de vez em quando e cai aquela chuva por aqui, em Titan o tempo também fecha e tempestades acontecem. Só que por lá chove metano, um hidrocarboneto que é líquido a -178 graus Celsius. Na Terra, metano é o gás natural que abastece termelétricas, aquece água em casas de várias cidades e move carros. Mas, ao que tudo indica, existe água, formando imensos blocos de gelo, numa paisagem que lembra bastante a geologia terrestre, como mostrou Rosaly Lopes, da Nasa, em uma palestra na semana passada aqui no Rio.
    Mas neste caso, a disciplina é outra, meteorologia. Emily Schaller, usando o telescópio IRTF da Nasa e o Gemini Norte, ambos no Havaí, detectaram uma tempestade gigante, ou titânica se me permitem, quase do tamanho da Índia! Isso para o planeta Terra já seria assombroso, mas quando consideramos que Titan é bem menor, essa tempestade tem, literalmente, dimensões planetárias.
    As nuvens em Titan são menores e se formam em uma frequência muito menor, tanto que durante 3 anos de monitoramento nada de impressionante havia sido detectado. Até que surgiu essa tempestade gigantesca, provocando chuvas torrenciais. Diferentemente dos canais e vales de Marte, que foram formados por ação da água há milhões de anos, em Titan a superfície está sendo modificada hoje, por metano líquido.
    Fonte: http://colunas.g1.com.br/observatoriog1/ por Cássio Barbosa.

    Animação suspensa




    Você já passou pela sensação de querer se desligar um pouco? Talvez sua vida estivesse tão complicada que você gostaria de entrar num estado de hibernação, para depois retornar quando tudo estivesse melhor. Ou então optar for ficar congelado enquanto a cura para sua doença não chega?
    No filme “Vanilla Sky” (uma refilmagem americana do original espanhol), o protagonista opta pelos serviços de suspensão animada com “sonhos lúcidos” oferecidos por uma firma de biotecnologia, após sofrer um acidente que deforma sua face. Assim, permanecerá em suspensão animada até um futuro quando a tecnologia de reconstrução facial esteja mais avançada. Mas algo dá errado com seus sonhos, e ele tem de chamar a assistência técnica…
    Diversos animais são capazes de, literalmente, desligar seu organismo por um tempo utilizando uma flexibilidade metabólica. Assim, conseguem reduzir o metabolismo e os batimentos cardíacos dependendo do ambiente em que se encontram. Essa flexibilidade tem, obviamente, um custo evolutivo, pois essas espécies acabam por ficar vulneráveis durante essa suspensão. Mas e no caso de humanos? Seria possível quebrar esse dogma médico? Relatos de casos isolados de indivíduos que treinaram mente e corpo durante anos para chegar nesse estágio podem ser encontrados na internet. Seria isso fato ou ficção?

    Abre tus ojos
    No começo de 2001, Erika Nordby, um bebê de apenas 1 ano de idade, saiu engatinhando de sua casa no Canadá durante uma noite gelada de 0 grau Celsius. Quando sua mãe a encontrou congelada, duas horas depois, o coração de Erika tinha parado de bater, sua respiração cessado e sua temperatura corpórea tinha abaixado para 16oC (a temperatura fisiológica do corpo humano é 37oC). Erika foi levada as pressas ao hospital, onde foi ressuscitada e hoje não tem nenhuma sequela do incidente.

    Em outubro de 2006, Mitsutaka Uchikoshi, 35 anos, adormeceu enquanto escalava a montanha gelada Rokko, nos arredores de Kobe, Japão. Ele foi considerado morto ao ser resgatado, 24 dias depois do ocorrido, com a temperatura corpórea de 21oC, sem pulsação, sem comida ou água. Entretanto, ao chegar ao Hospital Geral da Cidade de Kobe, algo fantástico ocorreu: Mitsutaka acordou. Mais impressionante ainda, ele não havia sofrido nenhum dano cerebral.
    Em maio de 1999, a esquiadora norueguesa Anna Bagenholm ficou submersa em águas geladas por mais de 1 hora, sendo considerada clinicamente morta. Sem batimentos cardíacos, sem respiração e temperatura corpórea de 13oC, ela foi ressuscitada poucas horas mais tarde no hospital (Gilbert, M e colegas. “The Lancet”, 2000).
    Tanto o bebê quanto o japonês e a norueguesa foram capazes de driblar a morte entrando em um estado conhecido como animação suspensa, no qual a maquinaria vital reduz sua atividade ao mínimo necessário, mas sem parar completamente. Esse estado é comparável à hibernação em alguns mamíferos e, em geral, é acompanhado de redução da temperatura corpórea ou hipotermia. O estudo desses casos isolados fez especialistas concluir que, em condições especiais, o homem também poderia hibernar.
    Ainda que a hipotermia não esteja sendo explorada por completo na medicina, já são conhecidos os benefícios de diminuir a temperatura abaixo de 37 graus Celsius em casos de parada cardíaca na recuperação das funções vitais, evitando danos no sistema nervoso centr

    Ovo podre
    Essa capacidade de flexibilidade metabólica entre a vida e a morte através da hipotermia chamou a atenção de Mark Roth, pesquisador do Centro de Estudos do Câncer Fred Hutchinson, em Seatle, EUA. Ele queria encontrar uma forma química (consequentemente mais rápida e prática) de induzir o estado de animação suspensa.

    Roth refletiu que outra maneira de reduzir a atividade metabólica em mamíferos seria restringindo o consumo de oxigênio (hipoxia). Foi então que ele teve uma ideia, enquanto assistia a um documentário sobre escavações em cavernas no México. Trabalhadores das minas mexicanas tinham de utilizar máscaras constantemente, para se proteger do gás sulfídrico ou sulfeto de hidrogênio (símbolo químico: H2S). Em altas concentrações, esse gás pode matar em minutos, pois bloqueia os receptores de oxigênio das células, que não conseguem mais absorver o oxigênio.
    Daí veio a sacada de Roth: o H2S é um produto do metabolismo celular que está naturalmente presente no sangue e só apresenta riscos vitais em altas doses. Se administrado em concentrações mínimas, o H2S teria, em princípio, o potencial de reduzir profundamente a demanda de oxigênio, a ponto de diminuir o metabolismo celular e proporcionar um estado de animação suspensa. Para quem acha que nunca respirou gás sulfídrico, ledo engano… A grande maioria de nós já teve a chance (infelizmente) de sentir o cheirinho desagradável de ovos podres.
    Voltando ao Roth, ele imediatamente resolveu expor seus camundongos a baixas concentrações de H2S e foi capaz de induzir até 6 horas de hibernação reversiva. Seus resultados foram publicados na prestigiosa revista “Science” (Blackstone e colegas, 2005) e uma fila de investidores veio bater na porta do seu laboratório. Em pouco tempo, havia acumulado 10 milhões de dólares para financiar seus próximos experimentos.

    Pílulas de hibernação
    Muito mais do que uma curiosidade biológica, a manutenção do estado de animação suspensa em humanos tem o potencial de ser uma poderosa ferramenta clínica. Desde a publicação original em 2005, a empresa farmacêutica americana Ikaria (nome inspirado na ilha grega cujas fontes sulfurosas foram associadas à medicina regenerativa) reformulou o H2S em líquido injetável que está sendo utilizado nos primeiros testes clínicos.

    As aplicações de dessa tecnologia extraordinária podem ser imensas. Imagine se pudéssemos induzir o estado de hibernação em um acidentado enquanto esperamos o socorro que não chega? E soldados em batalha, será que teriam mais chances se ganhassem mais tempo durante o transporte? Ou então para manter pacientes na fila dos transplantes enquanto esperam? Carregaríamos no bolso pílulas de hibernação assim como carregamos aspirinas. Parece ficção científica nos dias atuais, mas talvez não em 50 anos. Lembre-se disso da próxima vez que cheirar ovo podre!
    Fonte: http://colunas.g1.com.br/espiral/ por Alysson Muotri.

    Estranha transformação




    Durante um ataque epiléptico, ondas de atividade elétrica anormais se propagam pelo cérebro. O fenômeno pode gerar experiências estranhas, incluindo diversos tipos de alucinações e sensações diversas. Mais estranho ainda foi o caso recente de uma mulher com epilepsia que se sentia transformada em homem durante alguns ataques epiléticos.
    A epilepsia é uma condição neurológica cujas causas ainda permanecem desconhecidas. Em alguns casos, o início dos ataques epiléticos está relacionado com traumatismos cranianos, tumores cerebrais, alguns tipos de infecção, envenenamento ou alterações durante o desenvolvimento embrionário. Não existe idade para que os sintomas aconteçam, apesar de serem mais prevalentes em crianças e adolescentes. Cerca de 1 em cada 10 pessoas sofre com epilepsia em algum momento da vida. Não existe cura. O portador não controla os ataques ou crises epilépticas, o que contribui para o estigma da doença.
    Um trabalho recentemente publicado, liderado por Burkard S. Kasper e colaboradores (“Ictal delusion of sexual transformation”, Epilepsy & Behavior 2009) da universidade de Erlangen-Nurnberg, na Alemanha, descreve que as sensações de transformação sexual experimentadas por uma mulher de 37 anos incluem a impressão de que a voz ficou mais grossa e os braços mais peludos. Numa ocasião específica, a mulher relata que sentiu que uma amiga, que estava no mesmo ambiente quando ela teve o ataque, também se transformava em homem.
    Dados de ressonância magnética revelaram que a mulher tinha uma lesão na amígdala cerebral direta, provavelmente causada por um pequeno tumor. Também foram descritas atividades neuronais anormais perto do lobo temporal direito, sugerindo que aí estaria a fonte dos ataques.
    Fora alguns sintomas de depressão e ansiedade, que são controlados com medicamentos, a paciente não apresenta nenhum histórico de doença psiquiátrica e nunca teve a sensação de transformação sexual na ausência dos ataques. Sentimentos ilusórios de transformação sexual já foram descritos em pessoas com esquizofrenia e outras doenças psiquiátricas, mas nunca em pacientes com epilepsia.
    Os autores deixam claro no trabalho que não acreditam que haja um centro de identidade sexual na amígdala direta. Se esse fosse o caso, seria de se esperar alucinações parecidas em pacientes que passaram pela remoção de amígdala (um procedimento comum em pacientes cujos ataques são muito frequentes). Mas isso nunca foi descrito antes.
    Muito mais provavelmente, a amígdala estaria funcionando como um nó numa rede neuronal do cérebro, essencial para o reconhecimento da própria identidade. Eventuais falhas na sincronização dessa rede causariam essas bizarras experiências sensoriais.
    O grande escritor russo Fiódor Dostoiévski costumava descrever que sentia a presença de “Deus” em momentos imediatamente anteriores aos seus ataques epilépticos. Sensações mais comuns são sentimentos de déjà vu, ou o oposto, jamais vu (a sensação de um ambiente familiar tornando-se estranho de repente). No estado epiléptico você pode viver momentos de emoções intensas e extremas, levando-o para estados de perda de identidade do “eu” ou mesmo do seu lugar em relação ao mundo.
    Essa perda da capacidade de posicionar espacialmente pode ser correlacionada com o aumento da neurogenesis no hipocampo. O hipocampo é uma das áreas do cérebro onde se observa o constante nascimento de novos neurônios, a chamada neurogenesis. A neurogenesis continua na fase adulta e está relacionada com memória e aprendizado. Sabe-se que o hipocampo contribui para a memória espacial do indivíduo e talvez até pelo posicionamento do “eu” ou representação corporal no espaço.
    Curiosamente, ataques epilépticos ativam a neurogenesis de forma descontrolada. Os novos neurônios são produzidos em maior velocidade. Porém, nem sempre as conexões neuronais são estabelecidas de forma correta (Overstreet-Wadiche e colegas, “Seizures accelerate functional integration of adult-generate granule cells”. “The Journal of Neuroscience”, 2006). Essa neurogenesis desregulada poderia ser uma das causas da perda da memória espacial e reconhecimento ambiental.
    A epilepsia é uma condição neurológica extremamente misteriosa, e a investigação dos mecanismos envolvidos está sempre revelando dados fundamentais para o entendimento do cérebro humano. Epilepsia é a terceira condição neurológica mais prevalente na humanidade, abaixo somente do mal de Alzheimer e derrames cerebrais. Mesmo assim, ainda existe muito preconceito e discriminação.
    A falta de conhecimento contribui para uma série de mitos sobre epilepsia, tais como classificar os pacientes como doentes psiquiátricos, retardados ou mesmo incapazes. Neste mês ocorre a 5ª Semana Nacional de Epilepsia no Brasil, um movimento direcionado para a luta contra o estigma e para ampliar a campanha mundial “Epilepsia fora das sombras”, da Organização Mundial da Saúde (OMS). O Brasil tem posição de destaque na pesquisa, com diversos grupos trabalhando sobre o tema, na busca de mais conhecimento, diagnóstico e tratamento.
    Mesmo com toda essa mobilização, o espaço na mídia dedicado à epilepsia é pequeno. Seria interessante expor mais adultos e crianças ao assunto para que o preconceito e espanto ao presenciar uma pessoa tendo ataque epiléptico sejam coisas do passado.

    Fonte: http://colunas.g1.com.br/espiral/ por Alysson Muotri.

    Culturas impossíveis e a origem da crença na vida eterna




    As habilidades mentais dos humanos e outros animais têm mais semelhanças do que diferenças. Nas últimas décadas aprendemos, por meio de diversos trabalhos científicos, que os outros animais também são capazes de adquirir linguagem própria, produzir música, sentir empatia e passar ensinamentos. Temos então a impressão de que as diferenças culturais entre nossa espécie e as outras seriam apenas uma questão de profundidade.
    Essa profundidade sugere que exista um contínuo cultural, envolvendo espécies com habilidades tão refinadas quanto os humanos. Entretanto, não há evidências que suportem essa idéia. Compartilhamos cerca de 99% de nosso DNA com bonobos e chimpanzés e ainda assim somos culturalmente muito mais complexos que nossos ancestrais. Essa quebra na continuidade pressupõe um interessante paradigma cientifico: a possibilidade de culturas impossíveis. Essas culturas não teriam tido sucesso evolutivo por alguma razão (talvez por falta de ambientes ou circunstâncias ideais) ou teriam tido problemas em se sustentar, levando à extinção.
    Exemplo dessa falta de contínuo pôde ser observada em “formas” de vida cambrianas. Durante o período Cambriano (cerca de 500 milhões de anos atrás), houve uma rápida e imprescindível explosão de novas formas de vida. O fato de tamanha variação ter aparecido num curto período sugere que o genoma tem uma enorme capacidade criativa, adaptando-se rapidamente a diferentes ambientes. Mesmo nessa explosão de formas de vida, não encontramos um contínuo, sugerindo que outras forças impeçam a simples variação do que já existe. Isso pode até ser resultado de um empecilho físico, por exemplo. Voltemos agora à questão do contínuo cultural.
    A data aproximada de quando ocorreu a revolução cultural humana não é um consenso entre os pesquisadores. Alguns sugerem que começou cerca de 800 mil anos atrás e teve seu pico cerca de 45 mil anos atrás. Esse período é associado com a geração de símbolos (matemáticos, artísticos e ritualísticos), uso controlado do fogo e ferramentas para uso múltiplos. Tomando-se que esse intervalo de tempo é irrisório numa escala evolucionária, e que essa expressão cultural humana emergiu rapidamente, a comparação com a explosão criativa do Cambriano é impressionante.
    Alguma transformação genética deve ter acontecido, equipando os humanos com uma capacidade para gerar novas expressões culturais sem precedentes. Porém, da mesma forma que não se encontra o contínuo nas formas de vida do Cambriano, não encontramos o contínuo em diversas outras culturas. Algo aconteceu, impedindo que culturas hipoteticamente viáveis prosperassem em paralelo aos humanos. Será que o cérebro primata foi limitado de alguma forma a gerar outras formas de consciência?
    A possibilidade de outras culturas intriga cientistas e escritores de ficção científica. Em quase todos os casos em que se cogitam situações ou ambientes onde outras culturas pudessem ter existido, assume-se implicitamente que essas teriam sido selecionadas positivamente. Mas isso pode não ser tão simples assim…
    Entre as qualidades tipicamente humanas, está a consciência do “eu” e a “teoria da mente”, que permite uma inter-subjetividade ou o entendimento das intenções dos outros. Esses atributos podem ter sido selecionados positivamente por causa dos benefícios à comunicação entre os membros da espécie, facilitando a procriação, linguagem e outras atividades críticas aos humanos.
    Mas talvez a questão real seja: por que esses atributos somente surgiram em uma espécie, apesar de milhares de outras oportunidades durante a evolução? Ora, o surgimento da consciência humana e da teoria da mente deveriam trazer junto a consciência da vida finita, da própria morte. Longe de ser útil, o medo da morte pode ser encarado como um beco-sem-saída evolucionário, pois inibe atividades de risco e as funções cognitivas necessárias para a sobrevivência dos indivíduos da espécie. Ninguém se arrisca se as chances de morrer são grandes.
    Apesar de diversas espécies manifestarem indícios de consciência do “eu” (incluindo orangotangos, chimpanzés, golfinhos, orcas, elefantes e talvez alguns pássaros), a transição para um fenótipo tipicamente humano foi bloqueada por milhões de anos de evolução de mamíferos (e talvez aves).
    Assim, a única forma de essas propriedades terem sido selecionadas positivamente seria caso emergissem simultaneamente com mecanismos neurais responsáveis pela negação da morte ou crença na vida eterna. A ideia da consciência da própria mortalidade, ou desconfiança da morte, já foi associada a mecanismos de sobrevivência da espécie humana, mas nunca sob a perspectiva da descontinuidade cultural.
    Se essa lógica for verdadeira, é correto pensar que outras espécies também tenham atingido um sofisticado grau cognitivo, com uma completa consciência do “eu” e teoria da mente, em algum momento da evolução. Mas acabaram por serem extintas, pois não conseguiram conciliar essa conquista evolucionária com o tremendo impacto negativo das consequências de saber que seriam, de fato, mortais.
    Essa nova visão, ao meu ver, nunca antes tinha sido proposta e deve revigorar debates sobre as qualidades humanas universais necessárias para explicar a grande descontinuidade cognitiva observada entre nós e outras espécies. Pode também explicar por que humanos acreditam em reencarnação, vida após a morte, rituais de morte, crendices, tendências suicidas e martírio.
    Arrisco ir mais longe e dizer que esse momento ímpar da evolução humana foi ainda influenciado pelas interconexões neurais não definidas entre os dois hemisférios, levando a um cérebro semelhante ao sinesteta ou esquizofrênico (principalmente no que se refere a ouvir vozes “do além”). Da combinação dessas fatores, ganhou a religião seu adubo mais fresco.

    Fonte:http://colunas.g1.com.br/espiral/ por Alysson Muotri.

    terça-feira, 6 de outubro de 2009

    O CARA DA INFORMÁTICA...







    1. O cara da informática dorme. Pode parecer mentira, mas o cara da informática precisa dormir como qualquer outra pessoa. Esqueça que ele tem celular e telefone em casa, ligue só para o escritório;
    2. O cara da informática come. Parece inacreditável, mas é verdade. O cara da informática, também, precisa se alimentar e tem hora para isso;
    3. O cara da informática pode ter família. Essa é a mais incrível de todas: mesmo sendo um cara da informática, a pessoa precisa descansar no final de semana para poder dar atenção à família, aos amigos e a si próprio, sem pensar ou falar em (.infor..), impostos, formulários, concertos e demonstrações, manutenção, vírus e etc, .;
    4. O cara da informática, como qualquer cidadão, precisa de dinheiro. Por essa você não esperava, né? É surpreendente, mas o cara da informática também paga impostos, compra comida, precisa de combustível, roupas e sapatos, e ainda consome Lexotan para conseguir relaxar. Não peça aquilo pelo que não pode pagar ao cara da informática;
    5. Ler, estudar também é trabalho. E trabalho sério. Pode parar de rir. Não é piada. Quando um cara da informática está concentrado num livro ou publicação especializada ele está se aprimorando como profissional, logo trabalhando;
    6. De uma vez por todas, vale reforçar: O cara da informática não é vidente, não joga tarô e nem tem bola de cristal, pois se você achou isto demita-o e contrate um paranormal ou detetive. Ele precisa planejar, se organizar e assim ter condições de fazer um bom trabalho, seja de que tamanho for. Prazos são essenciais e não um luxo. Se você quer um milagre, ore bastante, faça jejum, e deixe o pobre do cara da informática em paz;
    7. Em reuniões de amigos ou festas de família, o cara da informática deixa de ser o cara da informática e reassume seu posto de amigo ou parente, exatamente como era antes dele ingressar nesta profissão. Não peça conselhos, dicas. ele tem direito de se divertir;
    8. Não existe apenas um “levantamentozinho”, uma “pesquisazinha”, nem um “resuminho”, um “programinha pra controlar minha loja”, um “probleminha que a maquina não liga”, um “sisteminha”, uma “passadinha rápida (alias conta-se de onde saimos e até chegarmos)”, pois esqueça os “inha e os inho (programinha, sisteminho, olhadinha, )” pois OS caras da informática não resolvem este tipo de problema. Levantamentos, pesquisas e resumos são frutos de análises cuidadosas e certamente precisam de atenção e dedicação. Esses tópicos podem  parecer inconcebiveis a uma boa parte da população, mas serve para tornar a vida do cara da informática mais suportável;
    9. Quanto ao uso do celular: celular é ferramenta de trabalho. Por favor, ligue, apenas, quando necessário. Fora do horário de expediente, mesmo que você, ainda, duvide, o cara da informática pode estar fazendo algumas coisas que você nem pensou que ele fazia, como dormir ou namorar, por exemplo;
    10.Pedir a mesma coisa várias vezes não faz o cara da informática trabalhar mais rápido. Solicite, depois aguarde o prazo dado pelo cara da informática;
    11.Quando o horário de trabalho do período da manhã vai até 12h, não significa que você pode ligar às 11:58 horas. Se você pretendia cometer essa gafe, vá e ligue após o horário do almoço (relembre o item 2). O mesmo vale para a parte da tarde: ligue no dia seguinte;
    12.Quando cara da informática estiver apresentando um projeto, por favor, não fique bombardeando com milhares de perguntas durante o atendimento. Isso tira a concentração, além de torrar a paciência. ATENÇÃO: Evite perguntas que não tenham relação com o projeto.
    13.O cara da informática não inventa problemas, não muda versão de Windows, não tem relação com vírus, não é culpado pelo mal uso de equipamentos, internet e afins, não reclame, o cara da informática com certeza fez o possível para você pagar menos. Se quiser emendar, emende, mas antes demita o cara da informática e contrate um quebra-galho;
    14.Os caras da informática não são os criadores dos ditados “o barato sai caro” e “quem paga mal paga em dobro”. Mas eles concordam.;
    15.E, finalmente, o cara da informática também é filho de DEUS e não filho disso que você pensou.
    Ass.: O Cara da Informática…

    segunda-feira, 21 de setembro de 2009

    Cientistas encontram possível ligação entre criatividade e loucura


    Pessoas criativas são muitas vezes tomadas por loucas e isso, talvez, tenha algum fundamento científico. Pesquisadores da Universidade Harvard e da Universidade do Texas, nos EUA, descobriram um elemento comum à criatividade e a desequilíbrios mentais: a maior predisposição a estímulos externos.
    Segundo os cientistas, que publicaram seu estudo na edição de setembro da revista "Journal of Personality and Social Psychology", pessoas criativas estão mais receptivas a estímulos externos que as outras. Em doenças como esquizofrenia, essa mesma característica se apresenta em seus estágios iniciais de desenvolvimento.


    Mecanismo mental
    Nos animais e nos seres humanos, existe um mecanismo inconsciente chamado de "inibição latente". Essa faculdade permite ignorar estímulos externos que a vivência desses indivíduos tenha demonstrado serem inúteis ou irrelevantes a suas necessidades. Por testes psicológicos, os pesquisadores conseguiram demonstrar que as pessoas criativas têm baixos níveis de inibição latente.
    "Isso significa que indivíduos criativos continuam em contato com a informação extra que chega constantemente do meio em que eles estão", diz um dos co-autores do estudo, Jordan Peterson, da Universidade do Texas.
    "Uma pessoa comum classifica um objeto e o esquece, mesmo que esse objeto seja muito mais complexo e interessante do que ela possa perceber. A pessoa criativa, por outro lado, está sempre atenta às novas possibilidades."


    Inteligência para selecionar
    Na pesquisa, os cientistas testaram a inibição latente de estudantes da graduação da Universidade Harvard, todos abaixo dos 21 anos e considerados extremamente inteligentes. Os que foram considerados mais criativos eram sete vezes mais sujeitos a apresentar baixos níveis de inibição latente.
    Estudos anteriores haviam associado uma alta inibição latente a psicose, mas os autores acreditam que ela seja positiva desde que (e apenas se) combinada a uma grande inteligência e a uma boa memória de trabalho, que permita pensar em várias coisas ao mesmo tempo.
    "Se você está aberto a novas informações, novas idéias, é melhor você ser muito inteligente e selecionar cuidadosamente todas elas. Se você tem 50 idéias, é possível que só duas ou três sejam boas. Você tem de ser capaz de discriminá-las ou ficará perdido", diz Peterson.


    Ligação com perturbações mentais
    A baixa inibição latente, associada à criatividade, também está presente em perturbações mentais, como a esquizofrenia, que a apresenta em seus estágios iniciais de desenvolvimento, acompanhada de grande instrospecção, conhecimento místico e experiências religiosas em razão de alterações químicas no cérebro.
    "Os cientistas estudam há muito tempo por que a loucura e a criatividade parecem ligadas. Parece que níveis baixos de inibição latente e flexibilidade excepcional do pensamento podem predispor a doenças mentais sob algumas condições e a conquistas de criatividade sob outras", afirma Shelley Carson, autora do estudo e palestrante de psicologia da Universidade Harvard.
    "Estamos muito felizes com os resultados desses estudos. Parece que não descobrimos apenas uma das bases da criatividade, mas também nos aproximamos da solução de um antigo mistério: a relação entre a genialidade, a loucura e as portas da percepção", afirma Peterson.

    da Folha Online.

    Síndrome de Savant


    Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.


    Síndrome de Savant é considerada um distúrbio psíquico com o qual a pessoa possui uma grande habilidade intelectual aliada a um déficit de inteligência. As habilidades savants são sempre ligadas a uma memória extraordinária, porém com pouca compreensão do que está sendo descrito.

    Caracterização

    Encontrada em mais ou menos uma em cada 10 pessoas com autismo e em, aproximadamente, uma em cada 2 mil com danos cerebrais ou retardamento mental, a síndrome de savant é citada na literatura científica desde 1789, quando Benjamim Rush, o pai da psiquiatria americana, descreveu a incrível habilidade de calcular de Thomas Fuller, que de matemática sabia pouco mais do que contar. Em 1887, no entanto, John Langdon Down, mais conhecido por ter identificado a síndrome de Down, descreveu 10 pessoas com a síndrome de savant, com as quais manteve contato ao longo de 30 anos – como superintendente do Earlswood Asylum (Londres). Langdon usou o termo idiot savant(sábio idiota), para identificar a síndrome, aceito na época em que um idiota era alguém com QI inferior a 25.
    Atualmente, graças aos cerca de cem casos descritos na literatura científica, sabe-se muito mais sobre esse conjunto de habilidades - condição rara caracterizada pela existência de grande talento ou habilidade, contrastando fortemente com limitações que, geralmente, ocorrem em pessoas com QIs entre 40 e 70 – embora possa ser encontrado em outras com QIs de até 114.
    Há ainda muito a ser esclarecido sobre a síndrome de savant. Os avanços das técnicas de imageamento cerebral, entretanto, vêm permitindo uma visão mais detalhada da condição, embora nenhuma teoria possa descrever exatamente como e por que ocorre a genialidade no savant.
    Mais de um século, desde a descrição original de Down, especialistas vêm acumulando experimentos. Estudos realizados por Bernard Rimland, do Autism Research Institute (Instituto de Pesquisa do Autismo), em San Diego, Califórnia, vêm corroborar com a tese de que algum dano no hemisfério esquerdo do cérebro faz com que o direito compense a perda. Rimland possui o maior banco de dados sobre autistas do mundo, com informações sobre 34 mil indivíduos. Ele observa que as habilidades savants presentes em pessoas autistas são, mais freqüentemente, associadas às funções do hemisfério direito (incluem música, arte, matemática, formas de cálculos, entre outras aptidões), e as habilidades mais deficientes são as relacionadas com as funções do hemisfério esquerdo (incluem linguagem e a especialização da fala).
    A síndrome de savant afeta o sexo masculino com freqüência quatro a seis vezes maior e pode ser congênita ou adquirida após uma doença (como a encefalite) ou algum dano cerebral.


    Ilhas de Genialidade

    Abaixo uma relação de algumas pessoas com a Síndrome de Savant.
    • Leslie Lemke – Aos 14 anos tocou, com perfeição, o Concerto nº 1 para piano de Tchaikovsky, depois de ouvi-lo pela primeira vez enquanto escutava um filme de televisão. Lemke jamais tinha tido aula de piano, é cego, mentalmente incapacitado e tem paralisia cerebral.
    • Richard Wawro (Escócia) é reconhecido internacionalmente por seus trabalhos artísticos. Um professor de arte (Londres), quando Wawro era ainda criança, descreveu-o como incrível fenômeno, com a precisão de um mecânico e a visão de um poeta. Wawro é autista.
    • Kim Peek memorizou mais de 12.000 livros. Descreve os números de rodovias que vão para qualquer cidade, vilarejo ou condado dos EUA, códigos DDD, CEPs, estações de TV e as redes telefônicas que os servem. Identifica o dia da semana de uma determinada data em segundos. É mentalmente incapacitado, depende de seu pai para suas necessidades básicas. Peek serviu de inspiração para o personagem Raymond Babbit, que Dustin Hoffman representou em 1988 no filme Rain man.
    • Alonzo Clemons pode criar réplicas de cera perfeitas de qualquer animal, não importa quão brevemente o veja. Suas estátuas de bronze são vendidas por uma galeria em Aspen, Colorado, e lhe deram reputação nacional. Clemons é mentalmente incapacitado.
    • Daniel Tammet com capacidade para dizer 22.514 dígitos de PI e aprender línguas rapidamente (fala 11 línguas).

    Os maiores cérebros do mundo


    As mentes mais extraordinárias da Terra pertencem a pessoas que mal conseguem falar ou calçar os próprios sapatos. Conheça os savants - e o que eles podem nos ensinar sobre os limites da inteligência humana

    por Texto Reinaldo José Lopes
    Kim Peek lê um livro de 300 páginas em 40 minutos. Uma página com cada olho. Esse americano de 57 anos já leu 9 mil livros, o que dá mais ou menos um a cada dois dias desde a infância. E com uma diferença em relação a você: ele não esquece nada do que leu. Kim sabe de cor a história de todos os países, seus presidentes, quando eles nasceram, quem foram as esposas deles... Recita qualquer trecho da Bíblia, do Alcorão ou da estrutura de um ônibus espacial.
    E tudo isso é pouco perto do que o britânico Daniel Tammet faz. Ele simplesmente inventou uma matemática particular. Pergunte para Daniel quanto é, digamos, 27 elevado à 5ª potência. Ele vai responder rapidinho que isso dá 10 460 353 203. Só que sem ter feito uma conta nem decorado nada. Os resultados surgem por mágica na cabeça desse inglês tímido de 29 anos. E ele não é incrível só com números. A rede americana de TV PBS o desafiou a aprender islandês, uma língua que até quem nasceu na Islândia acha complicada, em uma semana. Sete dias depois, Daniel estava num talk show em Reykjavik contando que o idioma deles era “mjög fallegur” (“muito bonito”) – era a 11a das línguas que ele aprendia a falar fluentemente.
    Daniel e Kim, diga-se, têm outra coisa em comum além desses superpoderes: os dois são deficientes mentais, diagnosticados como autistas. Kim mal consegue falar, não sabe abotoar a camisa e, quando criança, lhe recomendaram internação para o resto da vida. Daniel é mais comunicativo, um rapaz bem simpático até, mas se sente perturbado quando anda em ruas movimentadas e é tão desligado que não consegue pegar um ônibus sem se perder. E eles não são únicos. Isso de combinar algum problema mental com brilhantismo, ou até genialidade, em certas áreas, é conhecido como síndrome de savant (“sábio”, em francês), uma condição raríssima que desafia as idéias sobre como a mente funciona.
    Afinal, ninguém deveria ser capaz de decorar com precisão a quantidade de informações que os savants (vamos chamá-los assim, daqui para a frente) conseguem acessar sem o menor esforço em seus “discos rígidos” cerebrais. Também não parece fazer sentido a maneira como muitos deles lidam com a matemática: fazer contas gigantes é, para eles, uma atividade não consciente, como andar de bicicleta. E se pessoas com inteligência e habilidades sociais normais aprendessem como fazer isso? Será que todo mundo tem um “savant adormecido” dentro do próprio cérebro? É o que veremos a seguir.
    Idiotas sábios
    A primeira descrição que temos do savantismo foi feita em 1887 por John Langdon Down, psiquiatra britânico mais conhecido por ter feito também o primeiro relato científico sobre a síndrome de Down. Uma das principais experiências de Down com savants envolveu um paciente que conseguia recitar de cabeça o livro O Declínio e Queda do Império Romano, um catatau de 6 volumes. Down batizou os portadores do problema de “idiotas savants” (calma, na época “idiota” era um termo técnico).
    Alguma forma extraordinária de memorização parece estar por trás de todos os casos de savantismo, mas é bom qualificar essa afirmação: trata-se de uma memória diferente da que você usaria para decorar um número de telefone, por exemplo. Parece envolver pouco pensamento consciente e, muitas vezes, nem exige compreensão do que está sendo decorado. Darold Treffert, psiquiatra da Universidade de Wisconsin em Madison (EUA), relata o caso de dois gêmeos americanos com dano cerebral congênito, George e Charles, que não conseguiam fazer contas de somar simples, mas se divertiam gritando um para o outro números primos (os que só são divisíveis por 1 e por eles mesmos) de 20 dígitos, da ordem de quintilhões. Em comparação, a sua memória só consegue lidar com 7 ou 8 algarismos. É inconcebível fazer operações mentais conscientes com números desse tamanho.
    George e Charles, assim como Kim Peek e vários outros savants, também eram calculadores de calendário. Se você disser a Peek em que dia do mês e ano nasceu, ele responde imediatamente com o dia da semana em que você veio ao mundo.
    O preço que se paga para ser um savant é alto. Em geral, esses indivíduos são 10% dos autistas, ou uma a cada 2 mil pessoas que sofreram algum dano no cérebro ou nasceram com retardo mental. Uma grande exceção é justamente Daniel Tammet, diagnosticado com síndrome de Asperger, uma forma moderada de autismo – o portador tem boa capacidade verbal, embora normalmente seja um desastre social.
    Além de ser um savant, Tammet também tem sinestesia, uma forma rara de percepção que faz o cérebro misturar sentidos – sons podem ter cores associadas a eles, por exemplo. E isso torna a mente do rapaz ainda mais fascinante. A sinestesia dele é numérica. Ele afirma que todos os números de 0 a 10 mil possuem formas visuais específicas e até personalidades, como se fossem indivíduos mesmo. “O 11 é amigável, o 5 é barulhento e o 4 é meu número favorito, porque é quieto e tímido como eu”, conta Tammet em sua autobiografia.
    O britânico também reconhece todos os números primos até 9 973 porque eles lhe parecem “redondos e lisos, como os seixos numa praia”. Ao fazer multiplicações enormes, seu tipo favorito de contas, Tammet visualiza as tais formas dos números que estão sendo multiplicados lado a lado, separados por um espaço. Essa brecha entre os números tem exatamente o formato do produto da multiplicação: basta ele preenchê-la para que ele saiba, em poucos segundos, a resposta certa (veja aqui ao lado).
    O neurocientista Vilayanur Ramachandran, do Centro de Estudos do Cérebro de San Diego, testou as formas numéricas de Tammet, pedindo que ele as moldasse usando massinha de modelar e, no dia seguinte, que as refizesse. O resultado foi consistente, ou seja, o rapaz associa sempre a mesma forma ao mesmo número. O inesperado nas capacidades de Tammet é que as pessoas normais tendem a pensar nos números como abstrações puras, enquanto ele os transformou em objetos altamente concretos, coisas tão fáceis de entender intuitivamente quanto um cachorro ou um gato. Esse pode ser um segredo da inteligência savant, de acordo com Darold Treffert. A memória que mais usamos para atividades intelectuais é a consciente, que nos ajuda a lembrar se “espaço” se escreve com s ou cê-cedilha. Mas há outro tipo importantíssimo de memória: a implícita – aquela que nos permite trocar as marchas do carro sem pensar.
    Você pode ser um savant
    Ao que parece, os danos mentais que os savants têm os deixam sem acesso a grande parte da memória consciente. Então seu cérebro simplesmente transfere as funções dela para a implícita. E eles fazem automaticamente coisas que temos de pensar (e muito) para fazer. É uma capacidade não muito diferente de reconhecer um rosto. Nós nunca precisamos de uma descrição verbal da cara de um amigo para determinar que ele é o Paulo, e não o José: nosso cérebro simplesmente sabe. Para Tammet, os números funcionam assim. E talvez você seja mais parecido com ele do que imagina.
    É o que pensa o neurologista Allan Snyder, da Universidade de Sydney. Para ele, existe um Daniel Tammet dentro da sua cabeça. Esse “savant interior”, segundo o autraliano, foi quem fez você aprender a falar. Se você se mudar para a islândia e tiver um filho lá, terá uma criança bilíngüe em casa. Ela vai aprender português em casa e islandês na escola, e falar os dois idiomas. Você pode até aprender a língua local, mas nunca terá a fluência do seu filho.
    Essa habilidade mágica de “sugar” um idioma existe apenas na infância porque a mente vai “calejando” com o tempo. Por exemplo: Qem lê um txto scrito dste jto consegue entender a frase porque o cérebro criou padrões para cada uma dessas palavras. Com os sons de um idioma estranho é o contrário: sua mente está tão calejada com o português que decifrar novas línguas de ouvido não é fácil. Já os savants não teriam esse problema. Para Snyder, os danos físicos no cérebro deles impedem que esses calos mentais apareçam. Daí a capacidade de aprender islandês em uma semana.
    E a coisa mais maluca aqui é que Snyder quer fazer com que esse savant que um dia esteve na sua cabeça apareça de novo para dar um oi. Como? Aplicando ímãs no crânio. A idéia é “desligar” temporariamente partes da massa cinzenta a fim de simular os danos que os savants têm no cérebro. E assim fazer com que você veja o mundo como se fosse um deles. E não é que deu certo? Snyder fez com que pessoas submetidas ao experimento “virassem savants” por algum tempo, desenhando de forma mais precisa ou encontrando com mais facilidade erros de digitação que o cérebro das pessoas normais costuma ignorar. E o australiano vai mais longe. Ele acredita que novas versões de experiências como essas poderiam despertar a criatividade de gente comum. Afinal, por alguns minutos, poderíamos absorver informações em estado bruto, sem o filtro dos padrões mentais. Aí seria possível usar isso para desafiar idéias preconcebidas e inovar.
    Como, aliás, inovaram dois savants famosos: Isaac Newton e Albert Einstein. Não, não existe prova nenhuma de que eles portavam essa condição. Mas alguns neurologistas acham que os dois apresentavam, sim, pelo menos alguns sintomas da síndrome de Asperger – principalmente inabilidade social e obsessões compulsivas. De fato, Newton mal abria a boca e ficava imerso no trabalho a ponto de não comer. E Einstein, que se comportava como um autista até os 7 anos, repetindo frases sem parar, era tão desligado que certa vez não percebeu um terremoto enquanto divagava. Talvez nunca saibamos se eles eram ou não versões moderadas de Daniel Tammet. Mas Einstein pode ter deixado uma pista: “Uso sinais, imagens mais ou menos claras, como ferramentas para pensar. Elas se encaixam sozinhas, voluntariamente. Esse jogo de combinações me parece mais essencial que construções lógicas com palavras”. Foi o que disse certa vez o alemão. Qualquer semelhança disso com o que você leu nestas páginas talvez não seja mera coincidência.

    Cálculo savant

    Daniel Tammet foi o primeiro savant que conseguiu descrever como sua mente faz cálculos sobre-humanos sem fazer força. Veja como. (E nem pense em tentar você mesmo!)
    Pense em 3D
    Ele imaginou formas para todos os números entre 0 10 mil. Cada um ganhou identidade própria.
    Veja quem se encaixa
    Para multiplicar, ele aproxima mentalmente os "números" e deduz como preencher o espaço entre eles.
    Pronto!
    Então Tammet lembra que forma tem o número que se encaixa melhor no espaço vago. E dá a resposta certa.